“Se for bom, queremos que seja totalmente aprovado rapidamente”, disse Trump na cerimônia de assinatura. “Ou funciona, ou não funciona. Eu imagino que já tenha havido muita pesquisa, pesquisa indireta, talvez, a pesquisa definitiva -pessoas que tomaram”, acrescentou, deixando evidente o valor que empresta à opinião individual.
E fez piada, como registrou o boletim Psychedelic Alpha: “Vocês acham que o Biden conseguiria fazer isso?”
Psicodélicos contam com apoiadores de peso em sua administração, como Robert Kennedy Jr., secretário de Saúde, e Marty Makary, diretor da agência reguladora de fármacos e alimentos, a FDA.
Republicanos proeminentes como Rick Perry, que foi governador do Texas e secretário de Energia no primeiro governo Trump, fazem campanha para legalizar a ibogaína (substância derivada da raiz da planta africana Tabernanthe iboga) como tratamento para TEPT, condição por trás de 18 suicídios diários de veteranos de guerra.
No comunicado sobre a ordem executiva, a Casa Branca destacou em maiúsculas o item “Acelerando tratamentos para beneficiar todos os americanos, especialmente nossos bravos veteranos militares”: “Os EUA há muito enfrentam dificuldades para lidar com o fardo das taxas de suicídio e de doenças mentais graves no país, sendo que nossos veteranos frequentemente sofrem em maior medida”.
Bem atrás de Trump, na cerimônia, estava o podcaster Joe Rogan, um apoiador que passou a criticar sua política doméstica e internacional. Como seu programa tem mais de 16 milhões de seguidores, aparentemente o presidente quer agradá-lo num ano de eleições legislativas.
A ibogaína tem sido mais usada para tratar dependência química, inclusive no Brasil, e por ordem de Trump recebe agora sinal verde para a FDA aceitar pedidos de licença como novo fármaco. Ela se popularizou entre ex-combatentes traumatizados, muitos dos quais viajam ao México em busca da droga.
Também estava na assinatura o entusiasta Bryan Hubbard, da ONG Americans for Ibogaine, que deu um salve “a nossos irmãos e irmãs no Gabão” e caprichou na retórica: “A proibição federal da medicina psicodélica nos EUA chegou ao fim. Todos aqueles que lutaram por este dia, ao longo de décadas de luta monumental, sacrifício e sofrimento, podem agora declarar uma vitória seminal em prol da vida, da liberdade e da busca pela felicidade.”
O tema ibogaína e veteranos esteve em debate na sexta (17) no primeiro dia da conferência Psychedelic Culture, realizada pelo Instituto Chacruna no Brava Theater de São Francisco, Califórnia (EUA). O psicólogo brasileiro Bruno Ramos Gomes, que acompanha pacientes de ibogaína tratados pelo médico Bruno Rasmussen Chaves no Brasil, participou de um debate sobre o documentário “In Waves and War”.
Segundo Gomes, a discussão se deu principalmente em torno do fato de que os EUA não olham para outras vítimas de suas guerras, só para o próprio lado. Questionou-se, por exemplo, se esse destaque para a ibogaína não seria uma forma de apropriação cultural, de “recolonização”.
De todo modo, não deixa de ser uma boa notícia, avalia a antropóloga Bia Labate, diretora executiva do Instituto Chacruna. “É interessante que a ibogaína, de certa maneira, seja uma substância menos conhecida, que tem menos estigma, carrega menos uma imagem de alucinógeno, de substância maligna (em comparação com LSD). Isso ajuda a avançar o reconhecimento.”
Não está claro se a ordem executiva vai apressar também outras substâncias, como MDMA (ecstasy) e psilocibina (contida em cogumelos alucinógenos), em teste para transtornos como depressão, ansiedade e obsessão compulsiva. O ecstasy para TEPT sofreu um golpe duro em agosto de 2024, quando a FDA rejeitou pedido da empresa Lykos.
Mas pode ser que sim, em especial porque já terminou o teste clínico de fase 3 de psilocibina para depressão de outra companhia, Compass Pathways. Este será, provavelmente, o primeiro medicamento do tipo aprovado para uso clínico comercial nos EUA, cujos regulamentos biomédicos boa parte dos países tende a seguir.
Curiosamente, a assinatura ocorreu na véspera do Dia da Bicicleta (19 de abril), data em que se comemora a primeira viagem lisérgica intencional, quando o químico suíço Albert Hofmann ingeriu a substância e voltou pedalando para casa, vendo tudo que era sólido se dissolver à sua volta.
Trata-se de mercado paralelo ao dos medicamentos registrados pela Anvisa e conhecidos por marcas como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida). As canetas sem registro são mais baratas, mas a Anvisa afirma que tem identificado diversos casos de falsificação e de produtos com baixa qualidade.
| 11:15 – 20/04/2026
