Conforme a publicação, apresentada nesta quarta-feira (10) em Brasília, o recuo ocorreu em cidades de pequeno e médio porte, com populações que variam entre 18 mil e 111 mil habitantes. Metade desses municípios fica no estado de São Paulo.
“Em geral, essas iniciativas permaneceram em operação por períodos relativamente curtos, variando de poucos meses a alguns anos”, diz o documento.
O relatório cita Paulínia (SP), na região metropolitana de Campinas, que adotou a tarifa zero na década de 1990, mas interrompeu o programa após alguns anos de funcionamento, retomado depois em formato parcial, que também acabou descontinuado em 2018.
A prefeitura citou vandalismo nos ônibus para justificar o fim da gratuidade na época. Atualmente, o município cobra apenas R$ 1 -estudantes pagam R$ 0,50.”Paulínia opera com uma das tarifas mais baixas do país, demonstrando que diferentes estratégias podem ser adotadas para ampliar o acesso ao transporte coletivo”, diz o relatório.
Em Monte Mor (SP), a gratuidade universal no transporte coletivo foi encerrada em 2025, após menos de dois anos de funcionamento.
A prefeitura do município, com cerca de 65 mil habitantes, argumentou que o modelo se tornou financeiramente inviável. Hoje, a passagem de ônibus custa R$ 6, mas há alguns benefícios, como isenção total ou desconto para pessoas inscritas no CadÚnico.
CIDADES QUE RECUARAM EM TARIFA ZERO
– Jaboticabal (SP);- Monte Mor (SP);- Paulínia (SP);- Picos (PI);- Pirapora do Bom Jesus (SP);- Porto Real (RJ);- Tijucas do Sul (PR);- Ubiratã (PR).
Fonte: Pesquisa Tarifa Zero nas cidades do Brasil 2026
São Caetano do Sul, no ABC Paulista, não entra na lista. O município da Grande São Paulo vai restringir a gratuidade lançada em 2023, que vale para qualquer pessoa, a moradores cadastrados em uma plataforma chamada SancaGov. A tarifa para quem não reside na cidade será de R$ 5, segundo projeto enviado à Câmara de Vereadores.
Rafael Calabria, pesquisador de mobilidade do BRCidades, diz que em 2025 houve posse de prefeitos e que novos administradores reverteram a gratuidade. “Prefeitos que são contra revertem a política do anterior.”
O relatório mostra que a implantação de tarifa zero no transporte público em cidades brasileiras tem crescido em menor ritmo no Brasil, na comparação com o pós-pandemia, quando diminuiu o número de passageiros devido às restrições de circulação, em números até hoje não recuperados.
Atualmente, 143 municípios têm tarifa zero integral. Existem também outros 43 que adotam a gratuidade para categorias específicas de passageiros ou, por exemplo, apenas aos domingos, como na gestão Ricardo Nunes (MDB), em São Paulo.
“Enquanto o período entre 2021 e 2023 registrou uma disparada da política de gratuidade, com 70 municípios, em 2024 foram adotadas apenas oito iniciativas, em um ano marcado por eleições municipais, e 2025 contabilizou 21 novos programas”, diz o documento.
Os números mais recentes sugerem uma fase de acomodação da política, aponta o relatório, com redução mais significativa nas cidades de médio e grande porte.
No segmento de municípios com mais de 100 mil habitantes, apenas Canoas (RS) e Itaboraí (RJ) deixaram de cobrar passageiros.
“O dado comprova que o otimismo político esbarrou na dura realidade dos limites fiscais”, afirma a NTU.
Rafael Calabria lembra que em 2025, o governo Lula (PT) sinalizou que iria apoiar o fim da cobrança e, por isso, alguns prefeitos pararam projetos para ver o que fariam com um possível apoio do governo federal, o que até agora não aconteceu.
“Secretários que estavam analisando o tema seguraram. Era esperada a desaceleração”, diz.
Conforme o estudo, cidades de médio porte que sustentam a tarifa zero universal dependem diretamente de receitas extraordinárias ou fundos específicos, como os royalties do petróleo em Maricá (RJ), atividade portuária em Paranaguá (PR), ou receitas de publicidade e multas de trânsito.
“A experiência prática mostra que a tarifa zero não se sustenta como medida isolada ou populista”, afirma Francisco Christovam, diretor-presidente da NTU, em nota.
“Para avançar rumo a uma política de mobilidade que ofereça a gratuidade universal, precisamos de planejamento operacional, fontes estáveis de custeio e segurança jurídica, com respeito aos contratos vigentes”, diz.
Para ele, é preciso um pacto federativo que reúna União, estados e municípios no financiamento do sistema.
“Com um pequeno apoio federal é viável expandir esse modelo. Não é administrativamente um absurdo para prefeituras, nenhuma (das que adotou) quebrou”, afirma o pesquisador de mobilidade do BRCidades. “O impacto social é muito grande.”
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