Karina Gama ganhou projeção como dona da Go Up Entertainment, produtora do filme “Dark Horse” (azarão, em inglês), sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O nome da empresária também passou a ser alvo de questionamentos em razão de um contrato de R$ 108 milhões firmado entre o ICB e a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
A polícia investiga se parte dos recursos do contrato com a Prefeitura de São Paulo foi desviada para a produção da obra, o que a defesa dela nega com documentos.
Foi nesse projeto com o município que a empresa de Santos, a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., foi subcontratada pelo ICB por até R$ 12 milhões para implantação de 2.000 pontos de wi-fi em comunidades das zonas oeste e sul da capital paulista. Um extrato obtido pela Folha aponta o pagamento de R$ 2 milhões em 7 de julho de 2025.
Na ficha policial de Santos constam ao menos três condenações por roubo, que o levaram a passar por 13 presídios em quase 13 anos no sistema. As condenações somam 34 anos.
A defesa dele nega ligação com a facção criminosa. O instituto de Karina diz que desconhecia vínculos da empresa contratada, mas ressaltou que ela estava regular e não havia impedimento legal. A Prefeitura de São Paulo afirmou que sua relação jurídica ocorre exclusivamente com o ICB.
EMPRESA, PRISÕES E PROCESSOS
A empresa de Santos foi criada em 2020, com outro nome e outro objeto de atuação, pouco tempo após ele deixar a prisão. Começou com um capital de R$ 10 mil e, posteriormente, foi alterado para R$ 500 mil.
Também conhecido como Baianão, Santos acumula prisões e processos desde 2003, quando completou 18 anos. Nessa época, foi preso sob a suspeita de participar do sequestro-relâmpago de Roberto Calmon de Barros Barreto Filho, sobrinho do então senador Eduardo Suplicy (PT).
De novembro de 2012 a dezembro de 2017, por exemplo, ele ficou na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, local onde desde 2006 o governo passou a concentrar presos apontados como lideranças do PCC. Nesse mesmo período, estava na unidade Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como chefe máximo da facção criminosa.
Após ficar um período em Mirandópolis 1, Santos ganhou liberdade em novembro de 2018. No final do ano passado, porém, voltou à prisão, agora sob suspeita de feminicídio. Em novembro de 2025, segundo a investigação, ele teria jogado a namorada, Maria Katiane Gomes da Silva, 25, da sacada do 10º andar de um apartamento na Vila Andrade, região do Morumbi.
Maria Katiane aparece como testemunha em contrato firmado entre o ICB e a empresa de Santos.
Nesta nova prisão ele também foi enviado para unidade onde estão membros do PCC, em Iperó. A distribuição de presos por unidades ocorre após autodeclaração do preso sobre sua ligação com facções.
No inquérito sobre feminicídio, uma testemunha apresentou a gravação de uma discussão entre Alex Santos e Maria Katiane. No áudio, ele afirma: “tenho escorpião do PCC”, em referência a uma tatuagem.
“Alex também possui duas tatuagens, de uma carpa e de um dragão, que no contexto das facções criminosas, possui um significado. A combinação de ambos os símbolos reforça a ideia de um membro que superou grandes desafios e alcançou um status elevado ou superior dentro da facção”, diz um relatório policial.
Especialistas sobre PCC afirmam que o grupo não usa tatuagens para identificar seus membros. Alguns usam determinados símbolos por conta própria para assumirem sua ligação explícita com o crime.
OUTRO LADO
O advogado de Santos, Eugênio Malavasi, afirma que seu cliente não cometeu feminicídio e até ajudou nas investigações para demonstrar que a vítima se atirou pela janela. Segundo a defesa, o réu entregou uma assistente virtual Alexa que poderia conter informações importantes sobre o que ocorreu.
Sobre o contrato com o ICB, Malavasi disse não ter informações sobre o assunto, porque seu trabalho se limita à atuação no processo de feminicídio. Afirma, porém, que seu cliente jamais se declarou membro do PCC e nega ter ligação com o grupo. “Ele nega peremptoriamente ser membro do PCC”, disse.
Procurado, o Instituto Conhecer Brasil afirmou que a contratação da Favela Conectada, também conhecida como Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda., foi feita por eles, sem indicação da Prefeitura de São Paulo ou da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
Segundo o instituto, a escolha da empresa levou em conta critérios técnicos, operacionais e documentais, além da experiência da companhia em áreas de alta complexidade, como comunidades. A entidade afirma que, à época, a Urban Connect apresentava documentação regular e já desenvolvia atividades de conectividade em Paraisópolis em parceria com a Surf Telecom.
“À época da contratação, o instituto não tinha conhecimento de qualquer vínculo dessa natureza, tampouco havia impedimento legal ou restrição formal que inviabilizasse a contratação da empresa ou de seu representante”, diz trecho de nota enviada à Folha.
Ainda de acordo com o instituto, Santos não chegou a implantar os 2.000 pontos de wi-fi inicialmente previstos. A entidade afirma que, após readequação promovida pela SMIT (Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia), a meta global do projeto foi reduzida de 5.000 para 3.200 pontos, o que alterou a participação dos fornecedores.
Nesse contexto, segundo o ICB, a Urban Connect ficou responsável pela implantação, manutenção e monitoramento de 908 pontos.O instituto não informou os valores pagos à empresa. Ele disse que a remuneração ocorreu apenas pelos pontos efetivamente implantados, validados e em operação.
A Prefeitura de São Paulo informou que a Favela Conectada não atua como parceira do ICB, no âmbito do Programa WiFi Livre, desde dezembro de 2025. A SMIT diz que não há, nem houve, vínculo contratual direto entre município e a empresa ou seu administrador.
“Portanto, qualquer associação entre a Prefeitura de São Paulo e o crime organizado é irresponsável e leviana”, diz trecho da nota encaminhada pelo município.
Ainda segundo a resposta oficial, a relação jurídica da prefeitura ocorre exclusivamente com o ICB, entidade responsável pela execução da parceria. Cabe à organização parceira a contratação, gestão e fiscalização de seus fornecedores e eventuais subcontratados.
O município diz ainda que tem adotado medidas contra empresas envolvidas em suspeitas de vínculos com grupos criminosos, como ocorreu em dezembro de 2024, quando Nunes determinou o rompimento de contratos com empresas de ônibus investigadas.
Sobre o Programa WiFi Livre, a prefeitura afirma que os pontos contratados e pagos ao ICB foram instalados e seguem em funcionamento. Segundo a SMIT, não há irregularidades confirmadas até o momento nas investigações em andamento.
A secretaria afirma ainda que o termo de colaboração firmado com o ICB prevê mecanismos de fiscalização, incluindo acompanhamento de metas, indicadores de desempenho e análise da prestação de contas.
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