Em conversa datada de outubro de 2016 com Ramsey Elkholy, Epstein recebe informações sobre a Ford Models e outras agências de modelos brasileiras, como L’Équipe e Elite, além do que parece ser um concurso para agenciamento de novas modelos. Elkholy foi apontado em investigação do jornal The Wall Street Journal de 2023 como um músico e antropólogo que apresentou diversas mulheres a Epstein.
“Este seria um bom investimento se você quisesse construir sobre uma marca já consolidada e, é claro, com muitas oportunidades para se encontrar com modelos, mas acho que não com o mesmo acesso direto do concurso, em que a maioria das garotas são caipiras sem experiência como modelos”, afirma Elkholy. A troca de emails foi publicada inicialmente pelo jornal O Globo.
Procurado pela Folha, o dono da empresa, Decio Restelli Ribeiro, afirma que a Ford Models nunca esteve à venda e que ele nunca teve contatos com Epstein ou intermediários.
Operando licença da companhia no Brasil desde 1995, Ribeiro comprou a operação da matriz em 2020 e é o único dono. A companhia americana foi fundada em 1946 e já agenciou grandes modelos, como Naomi Campbell e Brooke Shields.
“Minha empresa não está a venda, nunca quis vender a Ford. Fiquei chocado”, disse Ribeiro. “Nunca conheci, conversei ou tive contato com esse Jeffrey Epstein. Fui saber quem era esse cara só quando ele morreu”, afirmou.
Nos emails, Elkholy não cita o brasileiro, mas diz ter tido contato com ele. “A Ford é gerida por apenas um cara, que nunca teve investidores. Ele expressou para mim que estaria aberto a ter algum apoio para conseguir realizar os objetivos da agência -que é de se tornar a IMG (grande agência global) do Brasil”, diz Elkholy.
“Ele (o dono da Ford Models no Brasil, que não é nomeado) não quis me dar um número sem um acordo de confidencialidade, mas acho que por US$ 1 milhão você consegue um pedaço considerável”, diz Elkholy.
Questionado pela reportagem sobre o suposto acordo de confidencialidade, Ribeiro negou ter assinado qualquer contrato do tipo e reforçou que nunca buscou vender a Ford ou parte dela.Em seguida, ainda de acordo com os emails que constam no documento, Elkholy afirma não saber se Epstein quer de fato ter 100% de qualquer agência. “Estou assumindo que você está mais interessado no acesso a (aqui, Elkholy incluiu um emoji de mulher)”.
“Se você quer que eu me encontre com ele de novo e o pressione por um número, me avise”, diz Elkholy, o que sugere que ele teria se reunido com o responsável pela empresa.
A única intervenção de Epstein na troca de emails é para dar aval a um acordo de confidencialidade: “Pode assinar o acordo de confidencialidade (NDA, na sigla em inglês usada para “non-disclosure agreement”) e pegar os números da Ford. Vou estar por Nova York na quarta-feira se você tiver tempo”, escreveu Epstein no dia 2 de outubro de 2016, um domingo.
Em nota, a empresa reforçou que nunca houve contato com Epstein ou intermediários dele.
“A Ford Models Brasil reforça que as informações mencionadas no email não condizem com a realidade e que a empresa nunca esteve à venda, tampouco participou ou foi objeto de qualquer negociação ou tratativa envolvendo o referido empresário e/ou intermediários”, diz o comunicado.
A busca pelos termos Brazil e Brasil retornam quase 3.900 arquivos da base de dados de documentos publicados pelo Departamento de Justiça americano sobre o caso Epstein. São desde trocas de emails e mensagens de celular a relatórios financeiros, fotos, vídeos e documentos judiciais, muitos deles com tarjas preservando endereços de emails, rostos de vítimas e informações sensíveis.
Diversos nomes de políticos, empresários e celebridades aparecem nos arquivos, ora como possíveis conhecidos de Epstein, ora como meras menções em discussões envolvendo o financista. O presidente Lula (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), aparecem em 62 e 65 arquivos, respectivamente -sem considerar buscas pelos nomes com erros de digitação.
O caso Epstein tem incomodado particularmente o presidente americano, Donald Trump, que é citado centenas de vezes. Arquivos do caso divulgados no fim de janeiro mostram que Trump foi acusado de abusar sexualmente de uma menor de idade. Segundo a denúncia, uma adolescente de 13 ou 14 anos teria sido forçada a praticar sexo oral no republicano décadas atrás no estado de Nova Jersey.
Não há mais informações sobre o caso nem quando ele teria ocorrido. De acordo com a denúncia, feita numa data não especificada, o abuso ocorreu há mais de 30 anos. Os documentos, porém, não indicam se essas informações deram origem a investigações posteriores. Pressionado por rivais e até por aliados, o republicano pediu, nesta terça-feira, que os americanos virem a página do escândalo Epstein.
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