Segundo reportagem publicada no sábado (21), Péter Szijjártó, ministro de Relações Exteriores da Hungria, há anos abastece seu par russo, Sergei Lavrov, com informações retiradas de reuniões do Conselho Europeu. De acordo com integrante de um serviço de inteligência, não identificado no relato, Szijjártó era tão frequente no contato que ligava para Lavrov até mesmo durante intervalos dos encontros, que reúnem representantes dos 27 países-membros do bloco.
O alinhamento de Budapeste com Moscou não é novidade. Registros oficiais mostram que o ministro esteve 16 vezes na Rússia desde a invasão da Ucrânia, em 2022. Na última, em 4 de março, encontrou Vladimir Putin. Szijjártó reagiu no X após a publicação do texto.
“Fake news, como sempre. Vocês estão espalhando mentiras para ajudar o Partido Tisza a instalar um governo fantoche pró-guerra na Hungria”, escreveu o ministro, em referência ao principal adversário do grupo de Orbán nas eleições parlamentares de 12 de abril.
Segundo as últimas pesquisas, o partido de Péter Magyar tem 48% de apoio, contra 39% do Fidesz, ou União Cívica Húngara, legenda populista de Orbán. À frente do país desde 2010, acusado de instrumentalizar instituições e a imprensa, o primeiro-ministro é figura de proa do autoritarismo conservador europeu, colidindo frequentemente com líderes da UE.
No último enfrentamento, na semana passada, Orbán usou o poder de veto para recusar um empréstimo de € 90 bilhões à Ucrânia. Em baixa nas pesquisas, transformou uma rusga com Volodimir Zelenski em questão de segurança nacional -a manutenção, em solo ucraniano, de um gasoduto russo que abastece a Hungria avariado na guerra.
Daí a referência a um “governo fantoche pró-guerra” na postagem de Szijjártó. Em cartazes da campanha eleitoral, o presidente ucraniano e Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, são alvos frequentes. Ainda assim, Bruxelas e boa parte dos opositores têm adotado cautela nas manifestações.
A ideia é evitar dar combustível para o sentimento nacionalista que o Fidesz busca explorar para reverter o quadro das pesquisas. Isso explica as reações tímidas ao veto da semana passada, algo que, em situações semelhantes, no passado, geraram pedidos de punição à Hungria e de mudança no processo decisório europeu, como chegou a fazer o alemão Friedrich Merz em 2025.
No fim de semana, um dos poucos a comentar o relato do Post foi o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, crítico frequente de Orbán. “Já tínhamos nossas suspeitas sobre isso há muito tempo”, escreveu no X. Ilustrando a divisão política que trava a Polônia neste momento, o presidente do país, Karol Nawrocki, está em Budapeste nesta segunda-feira (23) para participar da campanha do colega conservador.
Não é o único a correr para ajudar Orbán. No sábado, foi a vez de Donald Trump declarar em vídeo seu apoio ao húngaro. No mês passado, Mark Rubio, secretário de Estado americano, declarou durante visita a Budapeste que o sucesso dele seria um sucesso americano. Outro que promete visitar o país é J.D. Vance, vice-presidente dos EUA.
Citado como modelo no discurso reacionário internacional, o primeiro-ministro húngaro afunda nas pesquisas sobretudo por questões econômicas. Magya, um ex-aliado, adotou a bandeira anticorrupção, que ressoa a ligação de Orbán com Putin. A dependência do gás russo que o premiê usa como argumento no debate europeu, segundo denúncias, não seria uma construção de contingências, mas de interesses de pessoas próximas a seu gabinete.
Já está documentada, no mínimo, a participação de Moscou na corrida eleitoral do país. Em geral acusado de interferir em eleições europeias, o serviço secreto russo, desta vez, trabalha para manter alguém no cargo, custe o que custar. Segundo o Post, o SVR recomendou “encenar uma tentativa de assassinato” de Orbán, algo que, na avaliação da agência de espionagem, mudaria o paradigma da eleição.
Procurada pelo jornal americano, a assessoria de Orbán não respondeu a um pedido de comentário.
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