CAROLINA LINHARESBRASÍLIA, DF () – Na tentativa de se descolar do cerco ao Pix e do novo tarifaço anunciados pelos Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem dito que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), foi o responsável pelo sistema de pagamentos do Banco Central que se tornou querido pelos brasileiros.
No dia em que o Pix iniciou o cadastro das chaves, no entanto, Bolsonaro recebeu um elogio de um apoiador pela medida e pareceu não entender do que se tratava. O ex-presidente se confundiu e respondeu a respeito de um pacote de aviação que seria lançado naquela semana.
Ao ser corrigido, disse que não tinha conhecimento e que falaria com o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.
Apesar do desconhecimento do pai sobre a medida em sua estreia, Flávio tem repetido a declaração de que “o Pix é do Brasil e do Bolsonaro”.
Era outubro de 2020 e o então presidente conversava com seus apoiadores no tradicional cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada. “Parabéns pelo Pix, presidente, novo sistema do Banco Central que vai ajudar a população com pagamentos”, diz um homem.
Bolsonaro responde sobre outro assunto. “Tem uma Eu não li. Temos uma do (então ministro da Infraestrutura) Tarcísio (de Freitas) nesta semana que vai praticamente desburocratizar tudo sobre aviação civil, carteira de habilitação para piloto”, afirma.
O então presidente é corrigido pelo apoiador, que explica: “esse do Banco Central, para pagamentos, 24 horas, 7 dias por semana”. “Não tomei conhecimento. Vou conversar essa semana com o Roberto Campos”, responde Bolsonaro -que já havia mencionado o Pix em suas redes em fevereiro daquele ano.
Agora, em meio à disputa eleitoral entre o presidente Lula (PT) e Flávio, a paternidade do Pix voltou ao debate após o governo Donald Trump ter acusado o Banco Central de favorecer seu sistema de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento, numa referência a empresas de cartão americanas.
As conclusões constam em um documento divulgado na terça-feira (2) pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), que propôs uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros para lidar com práticas comerciais consideradas desleais pela gestão Trump. A decisão sobre aplicação ou não das taxas cabe ao presidente americano.
O anúncio dos EUA ocorre dias após Flávio ter se reunido com Trump na Casa Branca. O presidente americano atendeu ao pleito do senador de classificar facções criminosas como terroristas, uma vitória política do bolsonarista. Com o ataque ao Pix e o tarifaço, porém, o encontro se tornou um revés para o senador, que se defendeu dizendo ter pedido a Trump que não taxasse os produtos brasileiros.
Em resposta, Lula chamou Flávio de traidor da pátria. Durante um evento em Goiás, na terça, o presidente exibiu um cartaz com os dizeres “O Pix é do Brasil”. “O tal do bolsonarista foi nos Estados Unidos (…) e pediu para o Trump intervir no Pix brasileiro. Você acha que a gente vai deixar? Não vai deixar”, disse.
No dia seguinte, em Minas Gerais, Flávio levantou um cartaz afirmando que “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro!!!”. O senador atribuiu a Lula a culpa pelo novo tarifaço. “Se o presidente tivesse boa relação com os EUA, o Brasil estaria fora dessa lista. Essa tarifa é do Lula, é por causa do seu comportamento de agressão aos EUA”, disse.
O Pix começou a ser desenvolvido por equipe técnica do Banco Central durante o governo de Michel Temer (MDB), em 2018, quando o presidente da autoridade monetária era Ilan Goldfajn, e foi lançado em 2020, na gestão de Bolsonaro, quando Roberto Campos estava à frente do BC.
Em 5 de outubro de 2020, o Pix entrou em funcionamento para cadastro de chaves. O sistema entrou em plena operação em 16 de novembro de 2020.Um levantamento da empresa de análise de dados Palver mostra que Flávio é apontado como culpado pelas ameaças ao Pix ou pelo novo tarifaço em 8 de cada 10 mensagens opinativas sobre o assunto trocadas em mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram.
A Palver retira dessa análise mensagens consideradas neutras, como links compartilhados sem comentário e disparos automáticos de clipping, que apenas replicam notícias sobre determinado assunto.
O monitoramento se refere ao período de 27 de maio a 2 de junho e está atrelado à viagem de Flávio aos EUA e à reunião com Trump no Salão Oval da Casa Branca em 26 de maio.
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