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Futuro primeiro-ministro aposta em
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Futuro primeiro-ministro aposta em ‘manchesterismo’ para transformar Reino Unido

Last updated: 9 de julho de 2026 10:56
Gabriel Published 9 de julho de 2026
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De forma sucinta, descentralização de poder e um “socialismo pró-negócios”, como o próprio Burnham definiu recentemente. Há muito mais no pacote, que vem sendo revelado, descoberto e especulado nas últimas semanas, assim como omissões.
Burnham, que deixou a condução da Grande Manchester para se eleger ao Parlamento, condição que o grupo de Starmer forçou para tentar deter sua ascensão, deve ser o único trabalhista a registrar candidatura nesta quinta-feira (9), no início do processo de sucessão do partido.
A janela de inscrições dura uma semana e se, como parece, não houver outro interessado, Burnham poderá se apresentar ao Rei Charles 3° no dia 20. Se surgir um concorrente, o processo deve se estender um pouco mais, porém sem tirar o favoritismo do ex-prefeito.
Descrito até como extremista de esquerda enquanto seu nome era apenas uma possibilidade, Burnham foi cuidadoso na escolha de palavras nas últimas semanas. Assegurou, por exemplo, a manutenção da responsabilidade fiscal em seu governo.
Evitou a grande imprensa, mas esclareceu dúvidas de eleitores em uma sessão de perguntas e respostas no Reddit. Atendeu inclusive Kemi Badenoch, a líder dos conservadores, que o acusou de selecionar amenidades e evitar perguntas difíceis em uma entrevista coletiva profissional.
“É um desafio justo, Kemi, mas não se esqueça de que faz apenas duas semanas que respondi às perguntas de 74 mil cidadãos de Makerfield”, respondeu Burnham, citando o nome do distrito eleitoral na região de Manchester que o elegeu ao Parlamento em meados de junho.
Manifestação mais contundente ocorreu na semana passada. Durante discurso proferido em um museu de Manchester, Burnham discorreu sobre vários assuntos, a começar pela descentralização de poder, base do que chama de “manchesterismo”.
Descentralização, no caso, é uma aproximação de “devolution”, devolução de competências, a alternativa britânica ao federalismo. É o Parlamento que detém o poder, mas historicamente o distribui em forma de atribuições. “O objetivo será oferecer novas oportunidades para ampliar a descentralização na Escócia, no País de Gales e na Irlanda do Norte, transferindo poderes”, afirmou Burnham.
O Reino Unido é o país do G7 com a política tributária e de gastos mais centralizada e, entre as nações desenvolvidas, um dos mais desiguais. Burnham, primeiro prefeito da área metropolitana de Manchester, é prova viva do quanto a descentralização de poder rende frutos -crescimento anual de 3,1%, ou o dobro da média obtida pelo país.
Trazer o processo decisório para o nível local, sobretudo em áreas como impostos, formação profissional, transporte e habitação, segundo o provável futuro premiê, é atender diretamente o cidadão e fazer a economia girar onde ela mais faz falta.
O plano de Burnham, nesse sentido, é tão elaborado que ele propõe um hub do número 10 de Downing Street, a sede do governo britânico, em Manchester. Caberia a essa “filial do norte” estudar e executar as medidas de descentralização mais necessárias e nos diversos níveis da administração pública. Quanto mais local, melhor.
O programa atrai atenções e críticas. Ao mesmo tempo que foca os principais problemas que afligem o eleitorado trabalhista, o projeto talvez não seja eficiente nacionalmente. Além disso, a revolução de gestão de Burnham teria de ser combinada com o Tesouro, responsável pela condução econômica do país.
Em artigo neste mês, Dave Richards, professor da Universidade de Manchester, lembrou que a empreitada só teria sucesso se o Estado britânico abdicasse da mentalidade de soluções padronizadas, desenhadas sobretudo para controlar despesas, aderindo a uma abordagem que respeitasse as necessidades de cada região, mais próximas do cidadão.
“Burnham compreende essa característica do Tesouro melhor do que a maioria”, escreveu o acadêmico.
Em Manchester, a receita deu certo. O ar decadente do antigo centro industrial foi substituído por uma economia moderna, voltada para serviços, economia criativa, tecnologia e cultura. Arranhas-céus pipocam no centro da cidade.
O “socialismo pró-negócios”, que pode soar como palavrão a ouvidos liberais, distribui, entre outras iniciativas, £ 1 bilhão (R$ 6,8 bilhões) entre dez distritos da Grande Manchester. A alocação dos recursos é definida pelos gestores locais.
O investimento privado faz parte da equação, mas sob o escrutínio dos eleitores. A bandeira mais famosa do ex-prefeito em Manchester é o transporte público, cujo controle o poder público tomou de volta depois que as concessionárias não atenderam a pedidos de usuários referentes à modificação de linhas e horários.
O Bee Network, com seus veículos amarelos, virou uma marca da cidade e modelo para outros centros urbanos. O esquema, inclusive, prevê passe livre para os mais vulneráveis.
Fazer frente à extrema direita em ascensão no Reino Unido, personificada no populista Nigel Farage, parece justificar o foco de Burnham nos aspectos domésticos. Não por outro motivo, seus discursos e programas versam pouco sobre o exterior. Observadores esperam assim uma continuidade do trabalho de Starmer, calcado na gestão de crises, na reaproximação com a União Europeia e na desgastante relação com Donald Trump.
Análise do Conselho Europeu de Relações Exteriores lembra que Burnham tem como um de seus principais conselheiros Jim O’Neil, ex-funcionário do Tesouro e economista do Goldman Sachs.
O’Neil é conhecido por ter criado a sigla Brics e defende que os modelos econômicos do Ocidente, o do Reino Unido à frente, precisam ser repensados à luz da relação com países médios e emergentes. Depreende-se que o Brasil possa entrar nesse contexto.
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