Na maioria dos países, a porcentagem não teria força para mudar os resultados, mas, no Peru, onde as duas últimas eleições foram decididas por menos de um ponto, o número importa.
A populista de direita Keiko Fujimori largou na frente, mas foi ultrapassada por seu adversário até recuperar novamente a liderança. Agora, está à frente do candidato de esquerda Roberto Sánchez por quase 20 mil votos em um pleito no qual 27 milhões de eleitores estavam aptos a participar.
A apuração vinha em ritmo acelerado para os padrões peruanos –horas após o fechamento das urnas, no dia 7 de junho, a contagem já havia chegado a 90%. Desde então, porém, caminha a passos lentos, tornando provável a estimativa de até um mês dada pelas autoridades eleitorais para que saiam os resultados finais.
Nota-se, no entanto, que Keiko se afasta de Sánchez impulsionada pelos votos no exterior. Contabilizadas quase 97% das atas de consulados peruanos ao redor do mundo, a filha do ditador Alberto Fujimori, condenado por crimes contra a humanidade durante seu regime na década de 1990, ganha por mais de 13 pontos percentuais –no Brasil, 55,6% dos eleitores votaram nela.
Internamente, as eleições seguem o padrão do país: uma candidatura tentando anular os poucos votos que a afastam do adversário. Foi o que aconteceu em 2022, quando o partido de Keiko, o Força Popular, tentou anular quase 200 mil votos nas regiões andinas, reduto de Pedro Castillo (agora ex-presidente preso por uma tentativa de autogolpe e padrinho de Sánchez).
Neste ano a sigla está do outro lado do balcão. O partido de Sánchez, Juntos pelo Peru, pediu a anulação de 2.400 mesas de votação, 1.751 em território nacional, mais precisamente em Lima, e 649 no exterior –dois redutos eleitorais da presidenciável.
Parte do recurso foi negado por um motivo inesperado. O Júri Eleitoral Especial da capital para o qual foi feito o pedido de anulação de mais de 1.700 atas declarou a demanda improcedente. “Observa-se que não foi apresentado comprovante de pagamento da respectiva taxa eleitoral”, afirmou o órgão.
É preciso desembolsar 1.337 soles (pouco menos de R$ 2.000) para cada mesa que se pretende anular, o que resultaria em uma conta de R$ 4,7 milhões para o Juntos pelo Peru para contestar as 2.400 mesas.
De acordo com a imprensa local, a solicitação do partido pedia a anulação das mesas sob o argumento de que “a existência de evidências sérias, consistentes e sistemáticas de fraude eleitoral foi irrefutavelmente comprovada, consistindo na repetição idêntica e implausível de votos em favor da organização política Força Popular”.
A sigla argumenta que “foi identificado um padrão de votação idêntico que desafia toda probabilidade matemática e denota uma falsificação sistemática e coordenada no preenchimento das atas”.
Ainda na sexta, o partido começou a divulgar duas contas bancárias nas quais os apoiadores poderiam fazer doações “para a defesa do voto popular”. Em seguida, Sánchez passou a respaldar marchas de apoiadores ressaltando “grande responsabilidade com o povo, com a democracia e com a justiça”.
O esforço parece mais uma estratégia para manter o eleitorado mobilizado. O prazo para apresentar pedidos de anulação das mesas foi na última quarta-feira (10), e, sem a apresentação do pagamento da taxa junto com a demanda, a Junta Eleitoral Especial o declarará improcedente.
Parece ter dado parcialmente certo. Algumas marchas foram registradas no fim de semana e compartilhadas exaustivamente por Sánchez em suas redes sociais. Uma das publicações dizia que “o regime lança sua forças especiais da polícia contra os manifestantes pacíficos que exigem transparência eleitoral”.
A estratégia contradiz o que o candidato vinha defendendo em sua campanha pelo segundo turno. “Como um homem democrático, aceitarei os resultados. O voto dos cidadãos deve ser respeitado, e eu me comprometo a aceitar os resultados. Isto não é um salto no vazio, é democracia”, afirmou, em uma entrevista coletiva, dias antes da votação.
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