Keir Starmer foi eleito primeiro-ministro em 2024 com a promessa de “fazer o Brexit funcionar”, mas mantendo o compromisso de não reintegrar o Reino Unido à União Europeia, ao mercado único, à união aduaneira ou ao sistema de livre circulação de pessoas.
O plano apresentado era considerado vago e previa apenas algumas medidas específicas, como um acordo veterinário para reduzir controles nas fronteiras e diminuir os custos de produtos alimentícios, além do reconhecimento mútuo de qualificações profissionais para impulsionar as exportações de serviços e facilitar viagens de artistas em turnê.
Dois anos depois, esses objetivos ainda não foram alcançados. Até o momento, o governo britânico negocia apenas um acordo fitossanitário para facilitar a importação e exportação de produtos agroalimentares.
“Um governo que pretende respeitar essas linhas vermelhas não tem muita flexibilidade nem margem de manobra. Cometeu erros e perdeu parte do capital político porque foi extremamente lento ao chegar ao poder e não sabia exatamente o que queria”, afirmou à agência Lusa a analista Jannike Wachowiak.
Segundo ela, mesmo que Andy Burnham, conhecido por suas posições pró-europeias, substitua Starmer como chefe de governo nos próximos dias ou semanas, os desafios permanecerão os mesmos, especialmente devido ao tempo necessário para negociações técnicas com a União Europeia.
“Faltam três anos para as próximas eleições gerais. Não está claro o que poderia ser feito para alterar substancialmente a relação nesse prazo e gerar resultados concretos. Algo mais radical, como voltar a integrar o bloco, exigiria um horizonte muito mais longo”, destacou a pesquisadora do centro de estudos UK in a Changing Europe.
As estimativas sobre os impactos do Brexit variam, mas a emissora britânica BBC informou nesta semana que o crescimento econômico do país ficou cerca de 6% abaixo do esperado, segundo dados do Banco da Inglaterra.
Uma pesquisa de opinião realizada pela empresa YouGov revelou que 57% dos britânicos consideram que o Brexit foi um erro, incluindo 23% dos eleitores que votaram a favor da saída da União Europeia.
Diversas pesquisas também apontam que existe uma maioria favorável ao retorno ao bloco europeu, embora muitos defendam que o Reino Unido recupere condições especiais anteriormente garantidas em áreas como política monetária, segurança e justiça.
Outro levantamento, realizado para o King’s College London, indicou que o potencial de votos para o Partido Trabalhista poderia aumentar de 31% para 45% caso a legenda incluísse em seu programa eleitoral a proposta de um segundo referendo sobre a relação do país com a União Europeia.
A ex-servidora pública Jill Rutter afirmou que essas intenções devem ser analisadas com cautela, devido à situação econômica delicada do Reino Unido e ao elevado custo de vida enfrentado pela população.
“Uma das razões pelas quais esse debate está sendo retomado agora é que, por qualquer motivo que seja, passados dez anos, ficou evidente que o Brexit não melhorou o padrão de vida da população como muitos esperavam”, avaliou.
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